Última Marcha

Ford Mustang Mach 1 – Espécie em extinção

Versão esportiva tem características que tornam-a instantaneamente colecionável e desperta emoções em qualquer um que se interesse minimamente por carros

Emoção. Eis aqui a melhor palavra para definir o Mustang. O carro mexe com todos os sentidos, seja de um jovem rapaz ou de um senhor já idoso. Tudo começa com o olhar. Chegar na garagem e avistar o Mustang estacionado, te esperando para uma volta, faz o coração bater mais forte. A carroceria musculosa com adesivos alusivos à lendária versão Mach 1 tornam o esportivo ainda mais chamativo. Parachoques, grade e as rodas com design inédito potencializam esse feito.

Abra a porta e o cavalo, símbolo do Mustang, aparece projetado no chão. Entre no carro e é a vez de acionar o tato. Materiais de boa qualidade cercam o motorista na cabine. Mas isso nem importa tanto.

Por último e mais apaixonante, a audição. Pé no freio, botão de partida do motor acionado e o urro do V8 toma conta do ambiente. Sua família, em casa, inevitavelmente tomará um susto. Se a moradia for um prédio e a garagem, compartilhada, se prepare. Há possibilidade do alarme do carro, estacionado ao lado, ser acionado na hora.

Com a fera acordada, hora dar umas voltas. Câmbio na posição Drive e o Mach 1 sai ronronando por aí. Apesar de potente e esportivo, o modelo consegue ser dócil – caso o motorista queira, é claro. O combustível está caríssimo e as ruas, pessimamente asfaltadas. No entanto, basta pressionar o pedal do acelerador para se esquecer dos problemas. As pupilas dilatam, os reflexos ficam mais rápidos, a boca seca e as mãos ficam suadas.

O Mach 1 engole as 10 marchas e o V8 berra alto, com raiva. Tudo ao seu redor começa a parecer devagar. Ao contrário do velocímetro, que mostra a velocidade subindo de forma impressionante. Aí, você percebe que ultrapassou o limite permitido na via em uma fração de segundos.

Na mesma hora, você tira o pé do acelerador, diminui a temperatura do ar-condicionado, para refrescar o suor, e respira fundo para suavizar as batidas do coração. Os freios, assinados pela renomada Brembo, estancam a velocidade do Mach 1 com a mesma ferocidade das acelerações.

Com 483 cv e 56,6 kgfm de torque, o cavalo selvagem é 17 cv mais potente do que o Mustang GT Premium convencional. Para conseguir isso, a Ford fez uma “salada mista” e tanto, juntando componentes de outras versões mais potentes do Mustang. O sistema de captação de ar, por exemplo, veio da GT 350R. O enorme filtro de ar debaixo do capô chama bastante atenção, inclusive. Já a parte final do escapamento é a mesma do insano GT 500, o que explica um pouco do ronco espetacular do V8.

Apesar de potente e ignorante, o Mustang Mach 1 consegue ser bastante sociável. É difícil resistir às aceleradas, mas com bastante força de vontade, isso é possível. Em ritmo normal, o modelo se comporta tão bem quanto um Volkswagen Jetta GLI. No modo conforto, a suspensão fica menos rígida e até mima os passageiros.

A situação só muda em ruas mal pavimentadas. Nesse caso, o sacolejo é perceptível. Sorte que os bancos são confortáveis e ajudam a segurar o corpo.

O isolamento acústico é bom, apesar de sempre deixar o ronronar delicioso do V8 presente. Ainda bem! Para eliminar qualquer som externo, basta aumentar um pouquinho o volume da central multimídia e curtir o trajeto.

Falando em central multimídia, eis aqui o lado racional do Mach 1. Potente, esportivo, chamativo e tecnológico. Mesmo com aptidão visceral, o modelo ostenta um belo pacote de equipamentos de tecnologia e segurança, como a própria multimídia Sync 3 com conexão ao Apple CarPlay e Android Auto. O sistema de som, assinado pela renomada Bang & Olufsen, tem mil Watts de potência e 12 alto-falantes. Há ainda oito airbags, alerta de colisão e frenagem autônoma de emergência com detecção de pedestres, assistente de permanência em faixa e alerta de fadiga.

“Mach 1 por causa do desenho Speed Racer?”

Poderia ser, mas não. A versão Mach 1 do Mustang foi lançada em 1969 para fazer a ponte entre as configurações GT e Shelby GT 500. O nome é uma referência a velocidade do som (1224 km/h). Ao atingir essa marca, o objeto rompe as ondas sonoras geradas por ele próprio, chegando ao Mach 1. Na ficha técnica, o Mustang, claro, não rompe a barreira do som. Vai de 0 a 100 km/h em 4,3s e chega aos 250 km/h – limitados eletronicamente. Ainda assim, é potência demais para qualquer grande cidade.

Basta uma leve pressão no pedal para o modelo sair mais rápido do que todos os carros no sinal. E não estou falando de pé no fundo. 50% do pedal do acelerador já é mais do que suficiente para você extrapolar o limite de velocidade da via fácil, fácil. Isso tudo no modo normal de condução. Ao todo, são sete possibilidades, que mudam o comportamento do carro por completo. Há modos específicos para circuitos, arrancadas, condução em terrenos escorregadios e até para queimar pneus.

Visualmente, o Mach 1 é ainda mais agressivo do que o Mustang convencional. Na dianteira, o parachoque tem um spoiler que aumenta a esportividade, mas prejudica a entrada e a saída em rampas. Na grade, dois nichos redondos, meramente estéticos, remetem aos faróis de milha do primeiro Mach 1. A faixa no capô, com o nome do brinquedo, completa o design da parte frontal.

Nas laterais, as rodas de 19 polegadas deixam bem visíveis o enorme conjunto de freio. Os discos dianteiros têm 15 polegadas e usam pinças de seis pistões. Na traseira, as duas saídas duplas de escapamento são herança direta do GT 500. As lanternas são interligadas por uma faixa preta, que também leva o nome da versão. Um discreto aerofólio completa o visual. Por dentro, uma plaqueta presa no painel, do lado do passageiro, indica o número de produção da unidade, com tiragem limitada para o público brasileiro.

Equipado com suspensão adaptativa, o Mustang faz parte da nova geração dos muscle cars que, além de acelerar forte, também gostam de fazer curvas. Para perceber isso, basta pegar um pequeno trecho de serra. Com rigidez que varia de acordo com o modo de condução, é possível andar de forma confortável, em situações normais, ou deixar a suspensão mais rígida quando o coração pedir.

O último moicano

A eletrificação é uma realidade. Tanto em carros convencionais quanto em esportivos. E também não é novidade para ninguém que o desempenho dos eletrificados é muito superior. A entrega de torque dos motores elétricos é instantânea, o que os fazem superesportivos, mesmo sem parecerem ou terem essa intenção.

Mas tem uma coisa que os carros eletrificados ainda não conseguiram despertar: a emoção. E emoção, o Ford Mustang Mach 1 tem de sobra. É o último moicano, o último suspiro. A Ford confirmou que a próxima geração do Mustang, prevista para estrear no final de 2022, será eletrificada.

Por R$ 523.950, a linhagem Mach 1 do Mustang entrega um esportivo raiz, com motor grande e aspirado, ronco incrível, excelente dirigibilidade, sem perder segurança, e mimos tecnológicos. Diante de tudo isso, eu não pensaria duas vezes antes de curtir a vida a bordo de um dos automóveis mais icônicos do mundo. Se você pode, encomende já o seu!

Fotos: @fabioperrottafotografia

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments